
Tiago Fantozzi, piloto da Equipe ALE, compartilha com a gente um pouco das emoções vividas por ele no Rally Dakar 2010.
Tiago caiu numa vala na 6ª rodada da competição e foi impedido de continuar a prova. Continuou acompanhando os outros dois pilotos da Equipe ALE, Carlos Ambrósio e Vicente Neto, que foram um dos poucos brasileiros a completar o Dakar 2010.
Leia a entrevista abaixo e sinta um pouco do que fois a maior competição off-road do mundo!
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O Dakar é mesmo tão difÃcil quanto dizem?
Sim, muito!! O Dakar é a maior competição off-road do mundo. Uma prova extremamente dura, exigente e longa. Exige muito planejamento, grande trabalho em equipe, foco e dedicação. É uma competição que exige o máximo do piloto em relação à parte técnica, preparo fÃsico e espÃrito motivacional. O sofrimento é recompensado pelo aprendizado e as adversidades devem ser encaradas como uma superação constante.
Qual o pior trecho do percurso?
Nessa edição de 2010, os pilotos destacaram o 4º dia, que chegava em Fiambala como o mais complicado da edição. Foram 160km de trecho cronometrado que os pilotos ponteiras completaram em 5 horas (em outros dias, com esse mesmo tempo os pilotos chegaram a fazer trechos 3, 4 vezes maior). Foi um dia que mesclou muita areia, pedras, grandes dunas e navegação por GPS em um trecho bem travado e bastante técnico. Exigiu muito preparo fÃsico dos atletas e foi o trecho cronometrado com maior baixa de participantes. Para mim, este foi um dia relativamente tranquilo, pelo ritmo de prova que eu estava conduzindo, não enfrentei nenhum problema. O pior trecho na minha opinião foi o 7º dia, é claro, dia que cruzamos o deserto do Atacama e tivemos problemas com a roda.
O acidente:
O 7º dia foi especialmente difÃcil, pois enfrentei problemas com o equipamento de navegação logo nos primeiros quilômetros da especial e depois um longo trecho com muito pó e terra fofa (chamado no Dakar de Flesh-Flesh – que é como se fosse um talco que você afunda parado). Em função dos pilotos mais lentos na frente, eu percorria um trecho por fora da estrada principal. Um rio seco que estava marcado na planilha no km 230 apareceu na minha frente 700 metros antes. Naquele momento, eu havia acabado de sair do abastecimento(*) e a moto estava pesada (junte-se a isso as caracterÃsticas do solo de chão batido, seco e duro), a moto então não freou, e acabei caindo em uma grande vala que entortou a roda dianteira. Como não havia planejado e não estava estruturado para esse problema (com piloto mochileiro ou peças de reposição alocadas em carros ou caminhões inscritos na prova), tentei de todas as maneiras continuar na competição, mas fui impedido pela organização por ter utilizado uma peça que estava no carro de apoio(**).
(*) durante os trechos cronometrados são colocados pontos estratégicos que os pilotos são obrigados a parar por 15 minutos para abastecer.
(**) durante o trecho cronometrado o piloto só pode utilizar peças e ajuda mecânica de veÃculos inscritos na prova (como competidores).
Durante a competição, você manteve-se como o 1º brasileiro na categoria de motos, até o dia do seu acidente. O que você sentiu neste dia?
Senti muita angústia, frustração e indignação. Apesar de ser naquele momento o melhor brasileiro, liderar na minha categoria e ser o melhor latino-americano na classificação, o que eu fazia questão era de completar a prova. Fiquei inconformado com o acidente. O Dakar para mim era como um filho que eu estava criando dentro da barriga e perdi antes que nascesse.
Ficamos sabendo que, depois do acidente, você andou quase 3h no deserto do Atacama, em busca de ajuda. Como foi isso?
Quando percebi que o problema era grave foquei minha energia em contornar e resolver a questão. Fui a pé até o abastecimento que estava a uns 15 km para trás com intuito de aumentar o meu leque de opções. Lá consegui emprestado a roda de um piloto português que havia abandonado a competição, mas em vão pois não eram as medidas da minha moto. Então peguei uma carona até a cidade destino no dia, Iquiqui a 250 km, a fim de encontrar minha equipe. No acampamento peguei a roda reserva e voltei para o trecho onde a moto estava parada. Consegui substituir a roda por volta das 22h30 e terminei o trecho às 3h00 da manhã. Às 5h estava pronto para largar, mas já não tinham meu cartão de largada. Tentei conversar com o júri, mas a organização não me permitiu continuar. Nesse momento direcionei toda minha energia para Carlos Ambrósio e Vicente Neto, os outros pilotos da Equipe ALE, e foi muito inspirador ver os dois no final de cada dia, completando a competição.
Como a Argentina e o Chile receberam os competidores do Dakar?
É emocionante a maneira como o povo argentino e chileno recebeu a caravana do Dakar. Foram milhares de pessoas nas ruas das cidades, estradas e desertos, acompanhando de perto a competição. Qualquer hora do dia, 4 da manhã, meio dia ou 10 da noite, a população lotava por onde a competição passava. Pessoas de todas as idades e classes, aglomeradas aplaudindo e acenando para os competidores. Sem dúvida, esses foram alguns momentos inesquecÃveis da competição. Logo no primeiro dia, no deslocamento entre Buenos Aires e Colon, fomos homenageados com um cordão humano por 300 quilômetros!!! Impressionante, nunca imaginei nada parecido! As ruas e postos tinham que ser cercados por policias para não as pessoas não invadirem. Incalculável a quantidade de fotos e autógrafos que distribuÃmos ao longo da competição.
E para 2010? Quais são os planos?
Mais treino, mais dedicação e muito trabalho. Com a experiência adquirida na competição, pretendo aprimorar e fortalecer a estrutura da equipe ALE formando um time com os principais pilotos de Rally do Brasil. O Brasil é um paÃs muito forte e temos muito potencial de configurar entre os melhores do mundo. O objetivo é conquistar os melhores resultados da história do Dakar para o Brasil. Para acompanhar a Equipe ALE e saber quais campeonatos e competições a equipe estará presente no Brasil, acesse @equipeale no Twitter.
Aproveito para agradecer a todos que torceram pela equipe ALE e me deram força nos momentos difÃceis. Também não posso deixar de registrar meus agradecimentos a Carlos e Vicente, companheiros nessa jornada do Dakar, que completaram com maestria a competição e carregaram a bandeira ALE até a rampa de chegada, a Naya, minha esposa e fotógrafa oficial da equipe e a todos os patrocinadores e parceiros da Equipe ALE.