O presidente do Conselho de Administração da ALE, Sérgio Cavalieri, teve um artigo seu publicado ontem no jornal Estado de Minas. Compartilhamos com vocês, aqui no blog, o texto na Ãntegra.
HERANÇA MALDITA
“Precisamos de lÃderes que compreendam a importância da educação, da formação e valorização dos educadores.

Sérgio Cavalieri - Presidente do Conselho de Administração da ALE
Além de reafirmar o vigor do regime democrático, a realização das eleições de outubro também representa uma grave convocação à sociedade brasileira. Pela força do voto, teremos a oportunidade de nos posicionar diante de questões fundamentais que condicionam e determinam o tipo de nação que queremos construir. Nosso compromisso deve ser o de edificar um paÃs do qual possamos nos orgulhar no presente e do qual nos orgulhemos por legar à s gerações futuras. Nesse cenário, à frente de todas as outras, se destaca a questão ética. Majoritariamente honrada e moldada, segundo princÃpios de patriotismo e civismo, a sociedade brasileira não pode mais aceitar teses forjadas para justificar a falta de ética, a corrupção desenfreada e a ausência de compromisso com o paÃs. Não podemos mais admitir a visão fatalista de que o Brasil é assim porque nasceu assim, fruto de uma herança maldita que viria desde os tempos do nosso descobrimento e do perfil de colonização que tivemos. Também não somos uma sociedade que sempre quer levar vantagem e está pronta para dar um jeitinho em tudo.
Nosso paÃs, cujo povo tem a qualidade de ser pacÃfico, está deixando de ser passivo. Começamos o ano com a prisão de um governador em pleno exercÃcio do seu mandato – fato inédito na história brasileira. Nos últimos anos, a um só tempo, testemunhamos cenas ao mesmo tempo tristes, mas esperançosas, como a prisão de juÃzes, desembargadores, cassação de parlamentares e até o impeachment de um presidente da República. Lamentavelmente, muitos acabam voltando, quase sempre pela via do voto. São estes os arautos da chamada herança maldita, que, 500 anos depois, insistem em tentar nos convencer de que prevalece na sociedade brasileira a tolerância à s transgressões, uma postura cuja gênese estaria na Ãndole dos nossos primeiros colonizadores e dos povos que habitavam a recém-descoberta Terra de Santa Cruz.
São ardilosos e a todos tentam cooptar com a propagação de seus condenáveis atos de esperteza, que envolvem grandes infrações à s leis, como corrupção, mensalões e propinas. Com isso, procuram minimizar o impacto dos seus crimes e, perversamente, induzir segmentos da sociedade à prática transgressões menores, como comprar e vender sem nota fiscal, adquirir produtos piratas, conduzir veÃculo acima da velocidade permitida, parar o carro em fila dupla, dizer uma pequena mentira ou jogar lixo pela janela. É uma técnica subliminar sedutora, da qual precisamos nos defender em nome da construção de uma sociedade Ãntegra e honrada.
Outubro está chegando e é preciso dizer um sonoro basta as todas essas práticas, que degradam a ética e desconstroem uma nação. Como cristãos, não podemos nos resignar passivamente a essa sina e, menos ainda, aceitar a condenação de que seremos sempre uma sociedade de segunda categoria, desprovida de princÃpios fundamentais, como honestidade, disciplina, ordem, respeito e retidão. O nosso passado é importante como fonte de lições, mas não para determinar o nosso futuro – até porque, se assim fosse, não haveria espaço para o sonho e para a esperança, que devem nos mover sempre. Como nos ensinaram nossos paÃs e avós, devemos nos dar ao respeito!
Na verdade, devemos acelerar a nossa postura de cobrança por padrões éticos que queremos para o nosso paÃs e, assim, avançar na construção de uma sociedade onde prevaleça a confiança nas relações, o orgulho de ser honesta, guardiã de um tesouro valioso que dará um novo significado para nós e para as gerações que nos sucederão. Indignar-se é o primeiro passo. Vontade de mudar é o segundo – e, para que mudanças ocorram, é preciso atitudes verdadeiras e concretas, ação e coragem. Nas eleições que se aproximam, devemos nortear nossas escolhas por duas premissas fundamentais: banir da vida pública aqueles que agem contra a sociedade e escolher lÃderes comprometidos com valores fundamentais na construção de um paÃs.
Precisamos de lÃderes que compreendam a importância da educação, da formação e valorização dos educadores. Estes são os responsáveis diretos em promover uma educação de qualidade para as crianças e os jovens – é de cedo que se incute a consciência do certo e do errado, dos direitos e das obrigações, a clara separação entre o público e o privado, a noção de liberdade e justiça, de cidadania e do bem comum. Por seu componente pedagógico, o exemplo é um poderoso instrumento de transformação e deve vir dos lÃderes nos universos polÃtico e empresarial. Para mostrar que estão a favor das mudanças, os polÃticos podem começar pela aprovação do projeto Ficha Limpa, movimento popular que angariou 1,3 milhão de assinaturas para impedir que pessoas condenadas pela Justiça de primeira instância possam se candidatar. Se insistirem em manter sua atual postura, que produz e dissemina maus exemplos, a própria sociedade haverá de expurgá-los por meio do exercÃcio do voto.
Sérgio Cavalieri
Jornal O Estado de Minas – 09/03/2010

