Como podemos mudar essa situação ?

 

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As últimas semanas, para não dizer os últimos meses, foram difíceis de serem suportadas por qualquer pessoa que tenha um mínimo de apego à ética e a justiça social (eu me incluo nesse grupo e também incluo vocês). Os desfechos das últimas crises políticas nos deixam descrentes quanto a um futuro melhor para esse país. Sempre soubemos que a corrupção e a impunidade eram problemas graves no Brasil, porém o que vemos agora é uma completa falta de pudor, para não dizer vergonha, no trato desses assuntos. A população, a imprensa e a imagem do país lá fora, são atualmente colocadas em segundo plano, o que vale é o casuísmo, o jogo político e a certeza da memória curta do brasileiro. Os acusados de hoje sentem-se confortáveis pois sabem que logo outro escândalo eclodirá fazendo com que toda a lama vergonhosamente espalhada durante semanas, seja lavada para o ralo sem fim que espelha a completa falta de cidadania de todos nós e a enorme tolerância que temos como nossos governantes, mais uma vez, infelizmente,incluo-me neste grupo.

O problema é, o que fazer ? me pergunto todos os dias … pago meus impostos religiosamente em dia (diretamente através do imposto de renda, IPTU, IPVA e indiretamente adquirindo produtos e serviços), não utilizo vários serviços cuja prestação seria de obrigação do estado (pago escola privada para meus filhos, pago plano de saúde, pago aposentadoria privada …), sempre voto com consciência observando a capacidade e o perfil ético dos candidatos, procuro no meu dia a dia cumprir as leis, respeitar as pessoas, trabalhar de forma a construir algo que gere mais empregos e desenvolvimento, ou seja, que mais seria minha obrigação fazer ? existe um paradigma no Brasil de que as pessoas bem sucedidas e de bom padrão de renda não se preocupam com o país, que essas pessoas não se incomodam com a situação que vivemos hoje em dia, que desejam mais é que nada mude, isso não é verdade … tudo isto incomoda e muito … é impossível não se sensibilizar, não ser afetado, por tudo que nos cerca hoje em dia, ninguém pode ser feliz, por mais que tenha sucesso, por mais que tenha dinheiro, convivendo lado a lado com tanta miséria, com tanta violência, com tanta injustiça social, com tamanha impunidade. Recentemente criaram um movimento chamado CANSEI que visava insurgir-se contra toda essa podridão que assola o país, porém, devido a ter sido criado por empresários e colunáveis, foi logo tachado como um movimento golpista, como um movimento das elites, ou seja, é preciso ser pobre ou estar em dificuldades, para não concordar com o estado das coisas nesse país ? somente o MST e os Sindicatos possuem legitimidade para protestar e reclamarem ? ética, bom senso, fraternidade, amor ao próximo são coisas proporcionais ao saldo da conta bancária ? acho que não vale muita coisa, porém é o mínimo que posso fazer nesse momento : Quero deixar registrado que estou farto quanto a impunidade e falta de moral nesse país, quero deixar registrado que não me sinto completamente feliz em função da injustiça social que vejo todos os dias ao sair de casa, ao ler o jornal ou ao assistir TV.

Não tenho respostas para essas questões … sinto-me muito frustrado em não conseguir enxergar como poderia ser mais efetivo quanto ao meu desapontamento em relação ao rumo que nosso país está tomando. Não restam dúvidas que estamos surfando bem uma onda mundial de crescimento econômico, os indicadores econômicos estão progredindo, a distribuição de renda está melhorando e continuando com a sorte que temos tido podemos integrar o 1o. mundo no campo da economia daqui há alguns anos, as questões que se colocam neste momento são quanto a que sociedade estamos construindo para o futuro desse país ? em que bases morais nossos filhos viverão daqui a 10, 20 anos ? se hoje tudo é permitido, tudo é esquecido de forma tão rápida, o que será considerado imoral no futuro ? … o artigo da Bya Luft dessa semana na VEJA, que transcrevo abaixo, fala sobre tudo isso, talvez essa seja a saída : Tolerância Zero !

Vai piorar

“Tolerância zero com tudo o que nos desmoraliza e humilha, perseguição implacável ao cinismo, mudança total nas futuras eleições, faxina no Congresso”

Escritores devem escrever, palestrantes devem falar. Qualquer pessoa tem a obrigação de pensar e o direito de se expressar. Claro que isso não acontece num país de analfabetos, onde não se tem interesse em que o povo pense: um povo informado escolheria outros líderes, não ficaria calado quando pisoteiam sua honra, expulsaria de seus cargos os pseudolíderes e tentaria recompor as instituições aviltadas. Mas nós não fazemos nada disso: parecemos analfabetos e afásicos, uma manada de bobos assistindo às loucuras que se cometem contra nós, contra cada um de nós.

E eu, que tenho as duas atividades, escrever e eventualmente falar, que desde criança fui ensinada que cabeça não foi feita só para separar orelhas, mas para pensar, questionar – e também para ser feliz –, neste momento, não sei o que pensar. Muito menos o que responder quando me perguntam interminavelmente o que estou achando, como estou me sentindo. Estou virando pessimista. Não em minha vida pessoal, mas em relação a este país. Ou melhor: a seus governantes, autoridades, homens públicos, políticos. Mal consigo acreditar no que se está passando. A cada dia um espanto, a cada dia uma decepção, a cada dia um desânimo e uma indignação.

Este já foi o país dos trouxas, que pagam impostos altíssimos e quase nada recebem em troca; o país dos bobos, que não distinguem um homem honrado dum patife, uma ação pelo bem geral de uma manobra para encher o bolso ou galgar mais um degrauzinho no poder a qualquer custo; o país dos mistérios, onde quem é responsável absoluto não sabe de nada, ou finge enxergar outra realidade, não a nossa. Hoje, estamos ameaçados de ser o país dos sem-vergonha. A falta de pudor e o cinismo imperam e não há, exceto talvez o Supremo Tribunal, lugar totalmente confiável.

Entre os políticos, com cargos ou não, impera um corporativismo repulsivo – ou estaremos todos de rabinho preso? Nós, povo que se deixa enganar tão facilmente, que pouco se informa e questiona, vamos nos tornando da mesma laia? Seremos também, concreta ou moralmente, vendidos? Quando eu era menina de colégio, às vezes os rapazes se insultavam gritando “vendido!”, não me lembro bem por quê. Deviam ser questões esportivas. Um ponto não marcado, um gol roubado. Era grave insulto. Hoje, parece que ninguém mais liga para insultos, leves ou pesados – nada pega, tudo é água em pena de pato, escorre e acabou-se. Um povo teflon. Vemos líderes vendendo-se em troca de comodidade, cargo, poder, dinheiro, impunidade, preservação de algum sórdido segredo, ou simplesmente a covardia protegida. Quem nos deve representar sumiu no ralo. Quem nos deve orientar se transformou em mamulengo. Quem nos deve servir de modelo chafurda na lama. E nós, povo brasileiro, nos arrastamos na tristeza. Reagimos? Como reagimos? Pintamos a cara e saímos às ruas aos milhares, aos milhões, jogamos ovos podres, paramos o país, pacificamente que seja, tentamos mudar o giro da máquina apodrecida? Aqui e ali um tímido protesto, nada mais.

De algum lugar surgiram os senadores que votam às escondidas porque não têm honra suficiente para enfrentar quem os elegeu; os deputados pouco confiáveis, alguns duvidosos ministros, de onde surgiram? De nós. Nós os colocamos lá, nós votamos, nós permitimos que lá estejam e continuem – nós, através das mãos dos ditos representantes, instituímos a vergonha nacional que em muitas décadas será lembrada como um tempo de opróbrio.

E não argumentem que a economia está ótima: ainda que esteja, digo que me interessa muito menos a economia do que a honra e a confiança, poder ser brasileiro de cabeça erguida. Existe o Bolsa Família, a miséria está um pouco menos miserável? Pode ser. Mas os hospitais continuam pobres e podres, as escolas e universidades carentes, as estradas intransitáveis, a autoridade confusa e as instituições esfaceladas, os horizontes reduzidos. O Senado terminou de ruir? Querem até acabar com ele? Pode parecer neste momento que ele não faz muita falta, mas sua ausência seria um passo para o Executivo ditatorial, a falência total da ordem e a perda de um precário equilíbrio.

Com pressentimentos nada bons, faço – embora sem grande esperança – uma conclamação: tolerância zero com tudo o que nos desmoraliza e humilha, perseguição implacável ao cinismo, mudança total nas futuras eleições, faxina no Congresso, Senado e câmaras, renovação positiva no país. Conscientização urgente, pois, acreditem, do jeito que vai a coisa tende a piorar.

Lya Luft é escritora

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2 Responses to “Como podemos mudar essa situação ?”

  1. Tamara disse:

    Pois é, parece q o máximo q a gente faz não adianta nada, não serve pra mudar nada. Mas será q a gente faz o máximo q pode mesmo? E será q a gente não contribui tb para o clima de oba-oba e de falta de moral e de ética? Acho q a Tolerância Zero tem q começar c as pequenas coisas, com as mínimas coisas, só assim esse quadro pode um dia se reverter, nem q seja em outras gerações.

  2. Compartilho plenamente desse sentimento.
    O que realmente me deixa perplexo é a falta de horizontes ou possibilidades de mudança, o salvador da pátria já mostrou ao que veio e como o collorido, já deixou claro que não existe um homem que venha resolver nossos problemas.
    A possibilidade que a grande maioria desse congresso seja releita é imensa, não sei quantos anos a mais da mesma ladainha, agora acrescida do fato que nunca nesse país foi tão feio ser da elite, voar de avião ou ter sucesso como empresário ou comerciante.
    O bonito é ter bolsa familia ou emprego federal.

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