Donos do pedaço

O Jornal Estado de Minas  tem uma secção no caderno de Empregos intitulada “Donos do Pedaço”. Semanalmente eles retratam um executivo de destaque e fazem uma entrevista expondo os pontos de vista do mesmo. Neste domingo tive a honra de ser o escolhido, pude falar um pouco da minha carreira e dos meus pensamentos. Segue a íntegra da matéria e da entrevista :

DONOS DO PEDAÇO
Vôo de sucesso
Jucelino Sousa, Economista

Márcia Maria Cruz

O economista Jucelino Sousa, de 42 anos, é um apaixonado por livros, tanto os que tratam de gestão de empresas, como Uma breve história do mundo, de Geoffrey Blainey , quanto os de um realismo fantástico, como As pelejas de Ojuara, de Nei Leandro de Castro. Carioca de nascimento, com DNA do Rio Grande do Norte – estado de seus pais – e baiano de criação, Jucelino está em um dos melhores momentos de sua carreira como vice-presidente da AleSat, a quinta maior distribuidora de combustível do Brasil.

Atualmente, morando em Belo Horizonte, cidade onde nasceu o caçula de seus quatro filhos, ele comanda uma empresa com faturamento anual de R$ 6 bilhões. O segredo para o sucesso, em grande medida, está em sua visão de generalista, que ele adquiriu ainda na adolescência, quando ajudava os pais em uma banca de revistas. De lá nasceu o gosto para o novo – característica que o fez optar, com apenas 28 anos, por participar de um empreendimento em início, mesmo tendo recebido propostas de trabalho de diversas multinacionais.

Como foi o início de sua carreira?
Desde os 18 anos, quando comecei a trabalhar na indústria petroquímica na Bahia, percebi que estava mais ligado à área de marketing, à área comercial e à parte de gestão. Como me formei em economia, acabei migrando para essa área. Então, ingressei na Esso Brasileira de Petróleo, quando tinha 22. Foi meu primeiro contato com o segmento de combustíveis. Entrei no setor comercial da empresa em Salvador, onde fiquei por 7 anos e tive um crescimento profissional bem veloz. Cheguei nesse período a ser gerente regional. Com 27 anos, era o mais novo. Nessa experiência, tive oportunidade de ter contato com uma cultura de gestão de uma empresa multinacional, tinha todos os recursos à disposição, tudo o que um profissional precisava ter no início da carreira. Mas era muito novo, não tinha experiência e acabei tendo um desentendimento com um superior. Fui demitido da empresa. O desligamento da Esso foi um fato muito importante em minha vida, porque me serviu de uma grande lição. Esse momento me permitiu aprender a dar a volta por cima. Você com a carreira em pleno vapor, no auge da capacidade profissional, nível hierárquico considerável, se ver, da noite para o dia, sem um chão.

A demissão é sempre algo traumático, como se transformou em algo tão importante em sua carreira?
Isso acabou sendo o grande divisor de água na minha vida. Nessa época, recebi propostas de outras empresas multinacionais para trabalhar, como a Coca-Cola, Brahma, Shell, e também recebi o convite de um empreendedor, Marcelo Alecrim, que era um amigo, um cliente. O convite era inusitado porque não era para uma empresa estruturada. Era para criar um negócio, um empreendimento. Era exatamente uma distribuidora de combustível, a Sat. Na época, fiquei com muitas dúvidas: abdicar do prosseguimento de uma carreira em uma multinacional ou entrar em um projeto com todos os seus riscos e desafios, com um grau de incerteza. Mas o otimismo, a visão do Marcelo e a certeza de que esse projeto iria dar certo acabaram me cativando. O mercado era muito difícil, concorrência com empresas grandes, começar em uma região do Nordeste. É uma história muito longa, mas posso resumir um pouco: depois de 14 anos, estou aqui na AleSat, a quinta maior distribuidora do país, que fatura R$ 6 bilhões por ano, emprega 900 pessoas e que, este ano, por muito pouco, não comprou a Esso, que foi a empresa que me demitiu anos atrás. Não que guarde algum rancor, muito pelo contrário. A Esso foi uma escola para mim, mas isso mostra que alguns reveses na vida dão oportunidade de galgar posições e subir na carreira.

Você tem uma formação dupla em química e economia. Isso foi fundamental para sua carreira?
Eu não diria que foi fundamental. O fundamental em minha carreira foi ter estudado economia, que é muito abrangente no que se refere aos aspectos importantes para uma organização: finança, contabilidade, as matérias ligadas ao direito e relacionadas aos recursos humanos. Ao longo desses anos, busquei – e essa é uma de minhas características – estar sempre reciclando e agregando cursos. Tenho uma pós-graduação em finanças pela Fundação Getulio Vargas, uma pós-graduação em mercado de capitais, dois cursos no Insead, na França, na área de gestão. Não passo um ano inteiro sem participar de um treinamento. Eu me considero um autodidata. É obrigação do profissional se atualizar, ele não pode esperar isso da empresa. Óbvio que as corporações têm programas de formação, regras para treinamento, mas é obrigação de todo profissional se atualizar.

Quais as habilidades necessárias para se destacar no mercado corporativo?
Primeiro, você precisa ser um pouco generalista. Entender de tudo, como finanças, gestão de pessoas, marketing. Não importa qual é a sua especialidade. Entender, não em profundidade, mas ter noções claras. Para que a pessoa possa progredir, ela precisa ter uma base bastante sólida em relação a vários aspectos que permeiam a organização e não simplesmente focar na área de atuação. A leitura e a reciclagem são aspectos fundamentais. O segundo ponto é a capacidade de se relacionar, de se comunicar. As pessoas introvertidas e com problemas de relacionamento têm progresso limitado em uma empresa. Os negócios podem ser escritos, colocados em projetos, mas, no fim das contas, o que vai definir oportunidade de crescimento são os contatos pessoais. O terceiro ponto é ter iniciativa, ter coragem e saber se arriscar nos momentos corretos. A pessoa que fica acomodada em seu lugar, sem correr risco, esperando que a sorte caia do céu, tem oportunidades bem menores do que aqueles que se expõem mais, se apresentam e correm risco. É aquela história: não basta colocar o ovo, tem que cacarejar. O profissional tem que pôr a cara na janela, ter iniciativa, proatividade. Isso é uma das coisas que foi importante na minha carreira. Na Esso, fui transferido nove vezes. Chegavam e me diziam: “Você tem que ir para Vitória da Conquista”. Eu dizia: vamos embora. Depois para o Rio de Janeiro. Beleza. Você vai para Brasília. OK.

O profissional pode ter um bom salário, mas não estar satisfeito com o trabalho, ou vice-versa. Como fica a relação entre satisfação profissional e remuneração salarial?
A satisfação profissional tem vários componentes. A questão da remuneração é um deles, mas não define sua felicidade. Não é só isso. É necessário oportunidade de crescimento, estar em uma carreira com novos desafios, fazendo coisas diferentes, assumindo novas responsabilidades. Autonomia é outro fator importante. Às vezes, o profissional é muito controlado e, a qualquer passo, precisa consultar. É importante ter liberdade, para definição do seu tempo e das suas prioridades. Outro ponto importante é a equipe de que se faz parte. Por mais que você ganhe, por mais autonomia que se tenha, se você não tem uma equipe com quem se sinta entrosado, motivado, é muito difícil. Um quarto item é o reconhecimento, interno e externo. Faz bem ao ego ser reconhecido como alguém que contribuiu, alguém que realiza.

Como planejar a carreira? Quais dicas você daria para quem está começando agora?
O planejamento da carreira é muito complicado, muito difícil. A melhor forma é se manter atualizado. Nunca estar satisfeito ou relaxado, como se você já tivesse dado tudo o que poderia dar. Essa é a melhor maneira. Com o dinamismo do mundo contemporâneo, a carreira acaba seguindo caminhos distintos daqueles que você planeja pelas oportunidades que aparecem ou pela conjuntura. Você precisa estar apto e preparado para aproveitar as oportunidades. É importante abrir a mente e não se deve ter paradigmas.

Neste cenário de crise financeira, quem está na liderança das empresas terá um papel estratégico. Qual o diferencial do profissional? O que fazer diante desse cenário?
Não acredito em superexecutivos. Às vezes, se cria uma mística em torno de alguns executivos e empreendedores, que é mal utilizada. Em uma organização é impossível que uma pessoa apenas faça com que os resultados aconteçam. O nível de complexidade e o nível de variáveis com que você tem que lidar fazem com que o gestor não seja capaz de fazer por si só que a organização atinja os resultados esperados. Por trás de um líder, ou melhor, ao lado, você tem, com certeza, uma equipe. O líder toma uma decisão para a qual todos contribuíram. E mais, a decisão só vai se constituir em resultado, se toda a equipe fizer com que aconteça. O papel do líder, neste momento de crise, é manter a calma. Tem que tomar as atitudes certas, no momento certo, mas com equilíbrio. Se for necessário adotar atitudes duras, ele tem o que fazer, pois tem que pensar em algo maior, que é a sobrevivência da organização. Não pode haver medidas precipitadas, levadas a cabo simplesmente em função de uma onda de pessimismo. Particularmente, tenho uma visão diferente desta crise. O país está mais bem preparado em termos macroeconômicos e tem uma capacidade de superar crises – o primeiro mundo não tem essa experiência. O Brasil tem capacidade de se moldar e superar essas situações, como nenhum outro lugar do mundo tem. Não significa que o país não vá sentir. Teremos um primeiro trimestre muito difícil, mas o país vai superar com mais rapidez e eficiência do que outros países.

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5 Responses to “Donos do pedaço”

  1. Prezado Jucelino bonita sua vida Jucelino tenho alguns projetos esportivos a motor para lhe apresentar e necessito de um email para enviar inclusive com possibilidade de usar a lei faz athleta da Bahia! sou prepardor de motores ja trabalhei na cosipa em cubatão sp atualmente tenho como segunda profissao martelinho de ouro estando resentemente na polonia aonde chuveu granizo como ai em BH! um abraço e sorte em 2009! aguardo retorno!

  2. Jucelino recomendo este livro espero que goste O terceiro milenio de Alejandro Bullón abraços!

  3. Francisco Roberio de Castro Assuncao disse:

    Jucelino, acompanhei a trajetória da SAT e ALE por algum tempo. Trabalhei na ESSO e durante o período que estive lá, conheci seu trabalho. Um profissional dedicado, honesto e competente. Isso meu caro, incomodava algumas cabeças da época, pois a sua estrela ainda ia brilhar na organização. Sempre teci comentários com alguns colegas, da injustiça que a ESSO(Coorporação), não; cabeças mal preparadas lhe aprontaram. Fiquei satisfeito com a entrevista que li a pouco, pois você e Marcelo Alecrim, como um grandes Nordestinos que são, quebraram alguns paradigmas de que a honestidade, insistência, humildade e competência andam sempre juntas.

  4. Conceição Lima disse:

    Prezado Jucelino, de fato concordo com o Ivan, pois tive a oportunidade de acompanhar o início de sua carreira, sempre senti que você seria um grande empreendedor, muito inteligente,estudioso e acima de tudo um bom homem, digno, descende determinado. Li a sua entrevista hoje, e o fato de você não sentir rancor da Esso, soube perdoar, o perdão e todos estes seus valores fez com que você seguisse em frente, pois sabemos que em todos os caminhos encontraremos sempre lições preciosas, que nos farão progredir, por isto sempre te admirei muito, desejo que Deus continue te iluminando sempre, abraços Ceiça.

  5. Ernesto T Machado disse:

    Sr. Jucelino Sousa,

    Boa Tarde!

    Só agora é que tive a oportunidade de ler a entrevista acima. Apesar de fora de tempo, aceite os meus cumprimentos pela interessante entrevista.

    São de pessoas com atitudes como as suas é que precisamos para impulsionar o progresso e ao mesmo tempo gerar condições de trabalho para muitos.

    Atenciosamente.

    Ernesto

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